https://youtu.be/6LD1qEW36TY?si=g_IwA0gKuHNJC3kn
Vivemos imersos em angústias fabricadas pela era da produtividade e da informação constante. A política, reduzida a espetáculo, a inteligência artificial como uma ameaça distópica ou salvação milagrosa, a pressão por resultados acadêmicos que definem valor humano, são camadas de seriedade que escondem uma fuga da questão fundamental. Enquanto nos perdemos nessas labirínticas discussões, a vida escorre entre os dedos, não por falta de tempo, mas por excesso de significado emprestado a coisas que não o têm. A verdadeira profundidade não está na complexidade dos problemas que inventamos, mas na simplicidade crua de existir.
Nesse cenário, a voz de António Variações se apresentou como um manifesto de lucidez. Sua canção Vou viver é um antídoto contra o peso das expectativas alheias e das próprias. “Vou viver até quando eu não sei, que me importa o que serei, quero é viver”. Esta não é uma declaração de irresponsabilidade, mas sim de uma prioridade radical. É a coragem de colocar a experiência de viver acima da obsessão por controlar um futuro incerto. A vida não é um projeto a ser planejado até o último detalhe, mas uma curiosidade a ser saciada dia após dia. “Amanhã, espero sempre um amanhã, e acredito que será mais um prazer.” Esta fé no amanhã não é ingênua, é uma escolha ativa de ver a vida como uma sucessão de possibilidades e não de ameaças.
A ansiedade que define nossa época é o oposto dessa postura. É a fixação num futuro hipotético que nos rouba o presente. Variações celebrou a vida como “uma certeza que nasce da riqueza interior, do prazer em descobrir. Encontrar, renovar, vou fugir ou repetir.” Eis o verdadeiro trabalho da existência, muito mais complexo e relevante do que as discussões vazias que nos consomem. A interrogação final do artista não é sobre o destino da humanidade ou o impacto da tecnologia, mas sobre a própria essência da jornada pessoal. É uma pergunta que cada um deve responder a partir do seu próprio centro, da sua riqueza íntima.
A grande crítica subjacente é que trocamos a textura intensa da experiência pela aridez da especulação. Preocupamo-nos com o amanhã global e negligenciamos o hoje pessoal. A profundidade, afinal, reside em aceitar o mistério e abraçar o prazer de simplesmente estar aqui, agora, com a curiosidade intacta. “A vida em mim é sempre uma certeza.” Esta é a única política, a única inteligência e o único estudo que verdadeiramente importa.