Observo com estranheza os seres de palco e de cinismo, aqueles que adornam o rosto com sorrisos prontos e distribuem elogios como moedas falsas. Suas palavras possuem o brilho do engodo, mas seus corações permanecem na espessura do gelo. Acreditam que o Deus entronizado nos altares lhes concederá salvo-conduto eterno, como se o céu fosse uma propriedade particular e o inferno, uma sentença reservada apenas aos outros. Caminham, contudo, sobre uma crosta tênue que recobre o nada; a escuridão já lhes rodeia os pés e o abismo espera apenas o derradeiro passo para revelar sua face.
Em contrapartida, inclino-me aos raros que habitam a terra firme da autenticidade. Esses não temem proferir suas verdades, ainda que ásperas, nem recuam diante do conflito entre o bem e o mal, pois sabem que tais opostos se entrelaçam na trama viva da existência. Manifestam o choro sem vergonha, a ira sem disfarce, o ódio sem culpa e a alegria sem artifício. Estendem a mão não para o aplauso, mas para afastar o outro da borda do precipício, e amam com a intensidade de quem nada possui a perder, porque já perderam o medo de ser.
O Deus desses não se encerra em paredes de pedra nem se deixa aprisionar por dogmas. É o Deus do agnóstico, aquele que cada qual constrói na solidão de sua busca, na idealização do bem que não impõe jejuns nem exige holocaustos. Um Deus que não promete recompensas nem ameaça castigos, mas que se revela no gesto gratuito, na palavra sincera e na presença silenciosa diante do mistério. Para esses, o sagrado não se mede pela frequência aos templos, mas pela fidelidade à própria consciência, e a salvação não é um bilhete de entrada, mas uma caminhada sem rumo fixo.
Assim, enquanto os primeiros se perdem na vertigem de suas próprias máscaras, os segundos encontram, na nudez do ser, a única morada possível. O abismo e o céu não estão fora, mas dentro de cada ato, de cada escolha, de cada palavra que não trai o que se sente. E nessa geografia interior, prefiro a companhia dos que tropeçam na verdade à dos que dançam sobre o nada com passos ensaiados.