Maria da Penha

Maria da Penha

sexta-feira, 31 de julho de 2026

O teatro dos Santos e a solidão dos Homens

Observo com estranheza os seres de palco e de cinismo, aqueles que adornam o rosto com sorrisos prontos e distribuem elogios como moedas falsas. Suas palavras possuem o brilho do engodo, mas seus corações permanecem na espessura do gelo. Acreditam que o Deus entronizado nos altares lhes concederá salvo-conduto eterno, como se o céu fosse uma propriedade particular e o inferno, uma sentença reservada apenas aos outros. Caminham, contudo, sobre uma crosta tênue que recobre o nada; a escuridão já lhes rodeia os pés e o abismo espera apenas o derradeiro passo para revelar sua face.

Em contrapartida, inclino-me aos raros que habitam a terra firme da autenticidade. Esses não temem proferir suas verdades, ainda que ásperas, nem recuam diante do conflito entre o bem e o mal, pois sabem que tais opostos se entrelaçam na trama viva da existência. Manifestam o choro sem vergonha, a ira sem disfarce, o ódio sem culpa e a alegria sem artifício. Estendem a mão não para o aplauso, mas para afastar o outro da borda do precipício, e amam com a intensidade de quem nada possui a perder, porque já perderam o medo de ser.

O Deus desses não se encerra em paredes de pedra nem se deixa aprisionar por dogmas. É o Deus do agnóstico, aquele que cada qual constrói na solidão de sua busca, na idealização do bem que não impõe jejuns nem exige holocaustos. Um Deus que não promete recompensas nem ameaça castigos, mas que se revela no gesto gratuito, na palavra sincera e na presença silenciosa diante do mistério. Para esses, o sagrado não se mede pela frequência aos templos, mas pela fidelidade à própria consciência, e a salvação não é um bilhete de entrada, mas uma caminhada sem rumo fixo.

Assim, enquanto os primeiros se perdem na vertigem de suas próprias máscaras, os segundos encontram, na nudez do ser, a única morada possível. O abismo e o céu não estão fora, mas dentro de cada ato, de cada escolha, de cada palavra que não trai o que se sente. E nessa geografia interior, prefiro a companhia dos que tropeçam na verdade à dos que dançam sobre o nada com passos ensaiados.


quarta-feira, 15 de abril de 2026

 Meu Metro Quadrado


Meu corpo encolhe onde tem muita alma.

Meu ouvido sangra onde tem muita voz.

Deixa-me no meu canto, na minha calma.

Meu mundo cabe aqui. E aqui sou nós.


segunda-feira, 6 de abril de 2026

Trégua Armada

 Não é pela data, não pelo brilho vazio,

nem pelo símbolo, o engano ou o ritual.

É só por ser o dia em que é feriado,

o único em que cabem todos, afinal.


Reúno a mesa, o vinho, o gesto lento,

a carne assada e o doce já sem cor.

Mas vejo nos olhares o alinhamento

de uma guerra antiga, de uma antiga dor.


Sempre respiga algo. Um riso que se quebra,

uma pergunta acesa, um tom a mais.

A mãe que chora o filho que não volta,

o irmão que bebe o vinho dos sinais.


E o brinde soa oco como um sino

rachado no rigor do tempo morto.

Natal é o ensaio do sepulcro em família,

Páscoa é a traição de um beijo torto.

Ano novo passa a ferro as cicatrizes,

aniversário é a idade do desgosto.


Eu queria apenas juntar mãos e restos,

mas a união já vem com seu escombro.

E o que deveria ser festa é trégua armada,

onde o amor respira o mesmo ar do monstro.


Então celebra o rito, o calendário,

a desculpa maior que o sentimento.

E se outra família diz que é diferente,

mais verdadeira em cada acontecimento,

não mintas: isso é a farsa transparente.

No fundo, toda família é o mesmo vento.

domingo, 15 de março de 2026

A FOME QUE NÃO É DE PÃO

 Tem gente que morre de fome

Tendo o pão sobre a mesa.

Tem gente que adoece

Antes de qualquer tristeza.


Tem gente que envelhece

Sem ter vivido a beleza,

E carrega nas costas

O peso da própria leveza.


Tem gente que tem medo de fazer,

De pular, de cair, de tentar,

E passa a vida inteira

Apenas a observar.


Tem gente que vive no lusco-fusco

Em pleno sol de verão,

Com os olhos vendados

E a alma em escuridão.


Tem gente que nunca vê saída,

Nem quando a porta está aberta,

E prefere a cela conhecida

À liberdade incerta.


Tem gente que anda nu

Mesmo vestido de cetim,

Porque a nudez da alma

É a que mais assusta em si.


Tem gente que morre antes de viver,

Respira sem inspirar,

São estátuas de sal que se esqueceram

De como se deve andar.


Tem gente que ouve sem escutar,

Que olha sem enxergar,

Que fala sem dizer nada,

Que abraça sem apertar.


Tem gente que guarda o sorriso

Pra um dia que nunca virá,

E guarda tanto a alegria

Que a alegria definha no ar.


E seguem, cegos e mudos,

Cada um no seu lugar,

Esperando que um dia a vida

Os aprenda a despertar.


Mas o tempo passa em vão

Sobre os ombros de quem parou,

E a morte, paciente, espera

Por quem nunca começou.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O céu é a chama

 O céu e a chama


Havia um céu claro, inteiro,

um azul de infância, sem mágoa,

um tempo certo, verdadeiro,

que a chuva vinha quando era água.


Surgiu uma espessa fumaça,

nascida do metal e da pressa,

que tingiu o azul de desgraça,

e a chuva em ácido desce em praga.


Corrói a folha, a colheita,

ferve os rios, apaga o orvalho,

um verão que nunca aceita

o outono, nem seu trabalho.


E quando a última nuvem se esvai,

nem o azul nem a água voltarão...

Esse céu é o pacto que fizemos.

Aquela fumaça, a nossa ambição.

Cântico da Medida

 Cântico da Medida


Sem a matemática, seríamos

ritmo sem pulso, dança sem coreografia,

esporte sem estratégia, música sem harmonia,

expressões vagas e desordenadas,

tentativas cegas de organizar o caos.


A matemática não está apenas nos números,

mas na estrutura invisível

que dá forma ao belo, ao preciso e ao possível.


Sem ela, a vida seria

apenas intuição sem direção,

sentimento sem forma,

movimento sem medida,

um poema sem métrica,

ainda assim poema,

mas incapaz de se fazer

completamente entendido ou sentido.

Nirvana dos escombros

 Nirvana dos escombros


Este nirvana é um abismo calmo,

um silêncio que abafou o grito.

É a raiz que sonda o vazio

na terra árida e tolhida.


Sob a lâmina das cobranças,

cresci em solo de desamparo,

e o colo que a noite pedia

virou pó dentro do peito amargo.


Na adulta que não conquista,

só resta o sabor letárgico

de tentar ser o que esperam

e ainda carregar o fardo.


É o nirvana da decepção,

da alma inquieta e torta,

um céu de nuvens pesadas,

um porto que não aporta.


É raiva que não se grita,

desamparo enraizado.

É buscar um pouco de abrigo

e achar o mundo trancado.


E se paz existe em algum lugar,

não é aqui, não é nesta dor.

É só o vestígio da ressaca

de um amor que não veio, doutor.