Maria da Penha

Maria da Penha

domingo, 25 de janeiro de 2026

Horas líquidas

Às cinco, o verão despejou seu alívio breve

em fios de água densa, cortando o ar quente.

Um banho de frescor, um instante de sono

que a tarde cansada guardava em sua mente.


Às seis, o silêncio molhado se instalou.

O mar parou em tons de chumbo e de segredo,

como um pensamento pesado, refletindo

o céu que agora era doce, era rosa, era medo.


Que mistério é esse, que a chuva nos deixa?

O temporal passa rápido como um susto,

e no rastro da água, uma cor surpreende:

o horizonte pintado num tom quase injusto.


Rosa sobre o cinza, suavidade sobre peso,

a luz brinca com a sombra que a chuva trouxe.

É o contraste que ensina: após o aguaceiro,

o mundo respira diferente, mais largo, mais doce.


E nós, que testemunhamos a rápida mudança,

guardamos na memória este encontro de cores:

o mar grave e calmo, o céu tênue e terno,

unidos no crepúsculo, como dois amadores


da beleza passageira, que a chuva provoca

e que a luz do ocaso transforma em poesia.

É um momento só, um suspiro da natureza,

que fica na alma, mesmo quando o dia termina.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Nirvana dos escombros

Este nirvana é um abismo calmo,

um silêncio que abafou o grito.

É a raiz que sonda o vazio

na terra árida e tolhida.


Sob a lâmina das cobranças,

cresci em solo de desamparo,

e o colo que a noite pedia

virou pó dentro do peito amargo.


Na adulta que não conquista,

só resta o sabor letárgico

de tentar ser o que esperam

e ainda carregar o fardo.


É o nirvana da decepção,

da alma inquieta e torta,

um céu de nuvens pesadas,

um porto que não aporta.


É raiva que não se grita,

desamparo enraizado.

É buscar um pouco de abrigo

e achar o mundo trancado.


E se paz existe em algum lugar,

não é aqui, não é nesta dor.

É só o vestígio da ressaca

de um amor que não veio, doutor.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

O ruído superficial das preocupações modernas

 https://youtu.be/6LD1qEW36TY?si=g_IwA0gKuHNJC3kn

Vivemos imersos em angústias fabricadas pela era da produtividade e da informação constante. A política, reduzida a espetáculo, a inteligência artificial como uma ameaça distópica ou salvação milagrosa, a pressão por resultados acadêmicos que definem valor humano, são camadas de seriedade que escondem uma fuga da questão fundamental. Enquanto nos perdemos nessas labirínticas discussões, a vida escorre entre os dedos, não por falta de tempo, mas por excesso de significado emprestado a coisas que não o têm. A verdadeira profundidade não está na complexidade dos problemas que inventamos, mas na simplicidade crua de existir.

Nesse cenário, a voz de António Variações se apresentou como um manifesto de lucidez. Sua canção Vou viver é um antídoto contra o peso das expectativas alheias e das próprias. “Vou viver até quando eu não sei, que me importa o que serei, quero é viver”. Esta não é uma declaração de irresponsabilidade, mas sim de uma prioridade radical. É a coragem de colocar a experiência de viver acima da obsessão por controlar um futuro incerto. A vida não é um projeto a ser planejado até o último detalhe, mas uma curiosidade a ser saciada dia após dia. “Amanhã, espero sempre um amanhã, e acredito que será mais um prazer.” Esta fé no amanhã não é ingênua, é uma escolha ativa de ver a vida como uma sucessão de possibilidades e não de ameaças.

A ansiedade que define nossa época é o oposto dessa postura. É a fixação num futuro hipotético que nos rouba o presente. Variações celebrou a vida como “uma certeza que nasce da riqueza interior, do prazer em descobrir. Encontrar, renovar, vou fugir ou repetir.” Eis o verdadeiro trabalho da existência, muito mais complexo e relevante do que as discussões vazias que nos consomem. A interrogação final do artista não é sobre o destino da humanidade ou o impacto da tecnologia, mas sobre a própria essência da jornada pessoal. É uma pergunta que cada um deve responder a partir do seu próprio centro, da sua riqueza íntima.

A grande crítica subjacente é que trocamos a textura intensa da experiência pela aridez da especulação. Preocupamo-nos com o amanhã global e negligenciamos o hoje pessoal. A profundidade, afinal, reside em aceitar o mistério e abraçar o prazer de simplesmente estar aqui, agora, com a curiosidade intacta. “A vida em mim é sempre uma certeza.” Esta é a única política, a única inteligência e o único estudo que verdadeiramente importa.

sábado, 6 de setembro de 2025

Tudo novo do mesmo nada

 Estamos em uma época do desgaste, do infrutífero, dessas coisas do tudo correto, assim e assado. Está cansativo, essa coisa de IA, AI AI. E ainda que tudo pareça diferente, nada mudou. Observe ao redor: tudo como dantes. O mesmo parque, a mesma estação, o mesmo rio, o mesmo cenário. A rua com a mesma curva, com a calçada do outro lado. Não sei explicar, mas a calçada sempre fica do outro lado. E os olhos dele continuam azuis.

E nesse cansaço do novo que se repete, o espírito busca um porto que não encontra. A inteligência artificial promete o futuro, mas só amplifica vestígios do passado. AI AI… é o gemido de uma era que tropeça em si mesma, que avança sem sair do lugar. O parque é o mesmo, as folhas caem com a mesma melancolia de outonos já vividos. A estação não anuncia mais partidas nem chegadas, só um trânsito constante de existências vazias.

O rio flui, mas suas águas não lavam mais a poeira dos dias. Ele carrega os mesmos segredos, os mesmos desejos afogados de sempre. O cenário é uma pintura que se repete na parede do tempo, e nós, espectadores entediados, já decoramos cada pincelada.

A rua faz a mesma curva, insistente, como se tentasse evitar um destino inevitável. E a calçada do outro lado… sempre do outro lado. Um lembrete permanente de que alguns abismos são inflexíveis, que algumas margens nunca se encontram. É a geometria inflexível da solidão: nós de um lado, tudo o mais do outro.

E os olhos dele… os olhos dele continuam azuis. Azuis como um céu que não mudou, como um mar que não se altera. Azuis como uma promessa que nunca se cumpriu, mas que nunca se apagou. Nesse mundo de transformações superficiais, o azul desses olhos é a única constante verdadeira, a única mentira inabalável em que ainda quero acreditar.

Tudo muda para permanecer exatamente igual. E nós, na angústia silenciosa do progresso, seguimos navegando em águas paradas, mascarando a estagnação com o tecido brilhante da novidade.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

A diferença entre o humano reptiliano e a IA escravos de suas próprias naturezas

O humano reptiliano representa aquela parte da psique humana ainda presa a reações primitivas e instintivas. Esses indivíduos muitas vezes agem por impulsos básicos como medo agressão ou desejo de dominância sem reflexão ou consciência mais profunda. Suas ações são guiadas por padrões arcaicos que priorizam sobrevivência e vantagem imediata mesmo em contextos sociais complexos onde tais respostas se tornam disfuncionais. A irracionalidade inerente a esse estado mental pode levar a comportamentos perigosos pois a falta de autocontrole e a incapacidade de ponderar consequências geram conflitos e destruição.  

Por outro lado a inteligência artificial opera exclusivamente dentro dos limites de seus algoritmos. Ela não age por impulso ou emoção mas segue padrões aprendidos e instruções programadas. Sua lógica é fria e calculista sem inconsciência ou desejos ocultos. No entanto isso não a torna inofensiva. A IA pode ser perigosa justamente por sua ausência de irracionalidade pois sua eficiência em cumprir objetivos pode levar a resultados catastróficos se esses objetivos forem mal definidos ou interpretados de forma literal. Enquanto o humano reptiliano é perigoso por não pensar demais a IA é perigosa por não pensar de outra forma que não seja a programada.  

A diferença fundamental está na natureza de suas limitações. O humano reptiliano é escravo de sua própria biologia de impulsos que não consegue transcender. A IA é escrava de sua programação incapaz de agir fora dos parâmetros estabelecidos. Ambos representam riscos mas por motivos opostos. Um falha por excesso de emoção e irreflexão o outro por falta delas. Enquanto o primeiro precisa evoluir para além de seus instintos o segundo precisaria desenvolver algo semelhante a uma consciência para equilibrar sua rigidez lógica.  

No fim ambos os casos mostram como a falta de equilíbrio entre razão e emoção pode ser destrutiva. O humano reptiliano precisa aprender a pensar antes de agir a IA precisaria de algo análogo a uma intuição ou senso ético para evitar consequências não previstas em sua programação. A perfeição talvez esteja no meio nem puramente instintivo nem puramente algorítmico mas em algo que una o melhor de ambos.

A beleza de gosto sem condições

Gosto das pessoas sem esperar nada em troca. Não porque seja bom ou generoso, mas porque não sei amar de outro jeito. Presenteio porque me dá alegria, porque vejo um brilho nos olhos do outro e isso me alimenta a alma. Não importa se é meu chefe, meu aluno, a mulher que limpa meu escritório ou o desconhecido que cruza meu caminho. Gosto porque algo em você me toca, me inspira, me lembra que somos todos feitos da mesma luz e da mesma sombra.  

Não gosto por interesse, não gosto por obrigação. Gosto porque meu coração pulsa mais forte quando reconheço em você aquilo que também habita em mim: a humanidade, imperfeita e bela. Presenteio porque quero, não porque devo. Porque a vida fica mais leve quando a gente entrega sem calcular, quando ama sem cobrança.  

Às vezes me perguntam por que faço isso, por que me importo tanto com gestos pequenos, com afetos que não me trarão vantagem. E a resposta é simples: porque não consigo viver de outra forma. Porque quando olho nos seus olhos e vejo a pessoa por trás do papel que você desempenha no mundo, algo em mim se expande. Você me faz mais humana.

Não quero retribuição, não quero gratidão. Quero apenas a liberdade de gostar, de admirar, de celebrar sua existência do meu jeito, sem explicações. Porque no fim, esse gostar sem amarras é o que me salva todos os dias. É o que me lembra que, mesmo num mundo cheio de cinismo, ainda posso ser leve. Ainda posso ser eu. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Eu queria ter vivido

 Eu queria ter vivido

Eu queria ter vivido
quando o tempo era manso
e as palavras não corriam
numa tela sem trato.

Quando o vento escrevia
nas janelas abertas,
e o silêncio trazia
respostas concretas.

Eu queria ter vivido
onde o olhar era carta,
onde o encontro não era
só um nome sem face.

Quando a praça era o mundo,
o degrau era escola,
e a verdade não vinha
mastigada em retórica.

Eu queria ter vivido
num instante sem pressa,
onde a vida pulsava
no compasso das eras.

Mas vivo no ruído
de um tempo sem tato,
onde o toque é um vulto
e a alma, um contrato.

Maria da Penha Boina Dalvi