Cansei. Cansei de IA, cansei dos debates, dos vídeos, dos textos e da superficialidade. Exijo de mim a continuar com a minha caneta, e a folha branca sobre a escrivaninha. Desejo continuar fixando os meus olhos na parede em frente e a buscar no fundo dos meus pensamentos a imagem, qualquer que seja - colorida ou em preto e branco, triste ou alegre - e projetá-la com as lentes da experiência, na minha introspecção. Depois, observá-la profundamente e, empunhando a caneta com firmeza, descrevê-la segundo os espasmos do momento.
Um mestre instila informações nos seus discípulos, os bons discípulos serão aqueles capazes de contextualizar tais informações numa estrutura não elementar e, através de suas ações passarão a ter conhecimento, mas, para se tornarem mestres, terão de discernir o axiomático, transcendendo a sua máxima, e assim alçarem sabedoria.
Maria da Penha
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
sexta-feira, 31 de julho de 2026
O teatro dos Santos e a solidão dos Homens
Observo com estranheza os seres de palco e de cinismo, aqueles que adornam o rosto com sorrisos prontos e distribuem elogios como moedas falsas. Suas palavras possuem o brilho do engodo, mas seus corações permanecem na espessura do gelo. Acreditam que o Deus entronizado nos altares lhes concederá salvo-conduto eterno, como se o céu fosse uma propriedade particular e o inferno, uma sentença reservada apenas aos outros. Caminham, contudo, sobre uma crosta tênue que recobre o nada; a escuridão já lhes rodeia os pés e o abismo espera apenas o derradeiro passo para revelar sua face.
Em contrapartida, inclino-me aos raros que habitam a terra firme da autenticidade. Esses não temem proferir suas verdades, ainda que ásperas, nem recuam diante do conflito entre o bem e o mal, pois sabem que tais opostos se entrelaçam na trama viva da existência. Manifestam o choro sem vergonha, a ira sem disfarce, o ódio sem culpa e a alegria sem artifício. Estendem a mão não para o aplauso, mas para afastar o outro da borda do precipício, e amam com a intensidade de quem nada possui a perder, porque já perderam o medo de ser.
O Deus desses não se encerra em paredes de pedra nem se deixa aprisionar por dogmas. É o Deus do agnóstico, aquele que cada qual constrói na solidão de sua busca, na idealização do bem que não impõe jejuns nem exige holocaustos. Um Deus que não promete recompensas nem ameaça castigos, mas que se revela no gesto gratuito, na palavra sincera e na presença silenciosa diante do mistério. Para esses, o sagrado não se mede pela frequência aos templos, mas pela fidelidade à própria consciência, e a salvação não é um bilhete de entrada, mas uma caminhada sem rumo fixo.
Assim, enquanto os primeiros se perdem na vertigem de suas próprias máscaras, os segundos encontram, na nudez do ser, a única morada possível. O abismo e o céu não estão fora, mas dentro de cada ato, de cada escolha, de cada palavra que não trai o que se sente. E nessa geografia interior, prefiro a companhia dos que tropeçam na verdade à dos que dançam sobre o nada com passos ensaiados.
quarta-feira, 15 de abril de 2026
segunda-feira, 6 de abril de 2026
Trégua Armada
Não é pela data, não pelo brilho vazio,
nem pelo símbolo, o engano ou o ritual.
É só por ser o dia em que é feriado,
o único em que cabem todos, afinal.
Reúno a mesa, o vinho, o gesto lento,
a carne assada e o doce já sem cor.
Mas vejo nos olhares o alinhamento
de uma guerra antiga, de uma antiga dor.
Sempre respiga algo. Um riso que se quebra,
uma pergunta acesa, um tom a mais.
A mãe que chora o filho que não volta,
o irmão que bebe o vinho dos sinais.
E o brinde soa oco como um sino
rachado no rigor do tempo morto.
Natal é o ensaio do sepulcro em família,
Páscoa é a traição de um beijo torto.
Ano novo passa a ferro as cicatrizes,
aniversário é a idade do desgosto.
Eu queria apenas juntar mãos e restos,
mas a união já vem com seu escombro.
E o que deveria ser festa é trégua armada,
onde o amor respira o mesmo ar do monstro.
Então celebra o rito, o calendário,
a desculpa maior que o sentimento.
E se outra família diz que é diferente,
mais verdadeira em cada acontecimento,
não mintas: isso é a farsa transparente.
No fundo, toda família é o mesmo vento.
domingo, 15 de março de 2026
A FOME QUE NÃO É DE PÃO
Tem gente que morre de fome
Tendo o pão sobre a mesa.
Tem gente que adoece
Antes de qualquer tristeza.
Tem gente que envelhece
Sem ter vivido a beleza,
E carrega nas costas
O peso da própria leveza.
Tem gente que tem medo de fazer,
De pular, de cair, de tentar,
E passa a vida inteira
Apenas a observar.
Tem gente que vive no lusco-fusco
Em pleno sol de verão,
Com os olhos vendados
E a alma em escuridão.
Tem gente que nunca vê saída,
Nem quando a porta está aberta,
E prefere a cela conhecida
À liberdade incerta.
Tem gente que anda nu
Mesmo vestido de cetim,
Porque a nudez da alma
É a que mais assusta em si.
Tem gente que morre antes de viver,
Respira sem inspirar,
São estátuas de sal que se esqueceram
De como se deve andar.
Tem gente que ouve sem escutar,
Que olha sem enxergar,
Que fala sem dizer nada,
Que abraça sem apertar.
Tem gente que guarda o sorriso
Pra um dia que nunca virá,
E guarda tanto a alegria
Que a alegria definha no ar.
E seguem, cegos e mudos,
Cada um no seu lugar,
Esperando que um dia a vida
Os aprenda a despertar.
Mas o tempo passa em vão
Sobre os ombros de quem parou,
E a morte, paciente, espera
Por quem nunca começou.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026
O céu é a chama
O céu e a chama
Havia um céu claro, inteiro,
um azul de infância, sem mágoa,
um tempo certo, verdadeiro,
que a chuva vinha quando era água.
Surgiu uma espessa fumaça,
nascida do metal e da pressa,
que tingiu o azul de desgraça,
e a chuva em ácido desce em praga.
Corrói a folha, a colheita,
ferve os rios, apaga o orvalho,
um verão que nunca aceita
o outono, nem seu trabalho.
E quando a última nuvem se esvai,
nem o azul nem a água voltarão...
Esse céu é o pacto que fizemos.
Aquela fumaça, a nossa ambição.
Cântico da Medida
Cântico da Medida
Sem a matemática, seríamos
ritmo sem pulso, dança sem coreografia,
esporte sem estratégia, música sem harmonia,
expressões vagas e desordenadas,
tentativas cegas de organizar o caos.
A matemática não está apenas nos números,
mas na estrutura invisível
que dá forma ao belo, ao preciso e ao possível.
Sem ela, a vida seria
apenas intuição sem direção,
sentimento sem forma,
movimento sem medida,
um poema sem métrica,
ainda assim poema,
mas incapaz de se fazer
completamente entendido ou sentido.
Nirvana dos escombros
Nirvana dos escombros
Este nirvana é um abismo calmo,
um silêncio que abafou o grito.
É a raiz que sonda o vazio
na terra árida e tolhida.
Sob a lâmina das cobranças,
cresci em solo de desamparo,
e o colo que a noite pedia
virou pó dentro do peito amargo.
Na adulta que não conquista,
só resta o sabor letárgico
de tentar ser o que esperam
e ainda carregar o fardo.
É o nirvana da decepção,
da alma inquieta e torta,
um céu de nuvens pesadas,
um porto que não aporta.
É raiva que não se grita,
desamparo enraizado.
É buscar um pouco de abrigo
e achar o mundo trancado.
E se paz existe em algum lugar,
não é aqui, não é nesta dor.
É só o vestígio da ressaca
de um amor que não veio, doutor.
O mecanismo secreto das palavras
O mecanismo secreto das palavras
No ateliê escuro do verso,
as ferramentas não descansam.
A Metonímia é a chave de fenda prática,
substitui a engrenagem pela sombra que ela lança:
não diz "o autor", diz a capa gasta do livro;
não diz "o poder", diz o cetro que pesa na mão vazia.
Trocas sutis — o continente pelo sangue,
a causa pelo efeito mudo.
É uma lógica fria que arde.
A Sinestesia é o curto-circuito dos sentidos,
o fio desencapado do cérebro.
Faz o amarelo gritar da flor,
o som áspero ter cheiro de ferrugem molhada,
o silêncio ganhar textura de veludo negro.
É a percepção feita colisão,
o momento em que os sentidos se traem
e confessam que são um só.
A Antítese é o ímã que se repele,
a costura que une opostos pela tensão do fio.
Luz e breu no mesmo olhar,
raiz e asa no mesmo verso.
Não é o equilíbrio, é o fio da navalha,
o instante em que os contrários se reconhecem
como faces da mesma moeda suja.
É a contradição que sustenta o sentido,
como a respiração: um sopro que é sempre
expirar o ar que se inspira.
E o Pleonasmo — ah, o pleonasmo —
não é vício, é a pulsação obsessiva.
É o eco que insiste na caverna,
o ver com os próprios olhos que duvida da retina,
o calor ardente que precisa provar que queima.
É a linguagem que se toca para crer que existe,
a redundância como ato de fé:
repetir para que o real não escape
pelas frestas do dito.
Juntas, são o organismo da linguagem:
a metonímia (a relação), a sinestesia (a fusão),
a antítese (o conflito), o pleonasmo (a insistência).
São as veias do poema,
o mapa secreto de como nomeamos
o mundo que nos escapa —
enquanto tentamos, em vão,
ouvir o som escuro do limite
que nos cerca e define.
domingo, 25 de janeiro de 2026
Horas líquidas
Às cinco, o verão despejou seu alívio breve
em fios de água densa, cortando o ar quente.
Um banho de frescor, um instante de sono
que a tarde cansada guardava em sua mente.
Às seis, o silêncio molhado se instalou.
O mar parou em tons de chumbo e de segredo,
como um pensamento pesado, refletindo
o céu que agora era doce, era rosa, era medo.
Que mistério é esse, que a chuva nos deixa?
O temporal passa rápido como um susto,
e no rastro da água, uma cor surpreende:
o horizonte pintado num tom quase injusto.
Rosa sobre o cinza, suavidade sobre peso,
a luz brinca com a sombra que a chuva trouxe.
É o contraste que ensina: após o aguaceiro,
o mundo respira diferente, mais largo, mais doce.
E nós, que testemunhamos a rápida mudança,
guardamos na memória este encontro de cores:
o mar grave e calmo, o céu tênue e terno,
unidos no crepúsculo, como dois amadores
da beleza passageira, que a chuva provoca
e que a luz do ocaso transforma em poesia.
É um momento só, um suspiro da natureza,
que fica na alma, mesmo quando o dia termina.
sábado, 24 de janeiro de 2026
Nirvana dos escombros
Este nirvana é um abismo calmo,
um silêncio que abafou o grito.
É a raiz que sonda o vazio
na terra árida e tolhida.
Sob a lâmina das cobranças,
cresci em solo de desamparo,
e o colo que a noite pedia
virou pó dentro do peito amargo.
Na adulta que não conquista,
só resta o sabor letárgico
de tentar ser o que esperam
e ainda carregar o fardo.
É o nirvana da decepção,
da alma inquieta e torta,
um céu de nuvens pesadas,
um porto que não aporta.
É raiva que não se grita,
desamparo enraizado.
É buscar um pouco de abrigo
e achar o mundo trancado.
E se paz existe em algum lugar,
não é aqui, não é nesta dor.
É só o vestígio da ressaca
de um amor que não veio, doutor.