Maria da Penha

Maria da Penha

domingo, 25 de janeiro de 2026

Horas líquidas

Às cinco, o verão despejou seu alívio breve

em fios de água densa, cortando o ar quente.

Um banho de frescor, um instante de sono

que a tarde cansada guardava em sua mente.


Às seis, o silêncio molhado se instalou.

O mar parou em tons de chumbo e de segredo,

como um pensamento pesado, refletindo

o céu que agora era doce, era rosa, era medo.


Que mistério é esse, que a chuva nos deixa?

O temporal passa rápido como um susto,

e no rastro da água, uma cor surpreende:

o horizonte pintado num tom quase injusto.


Rosa sobre o cinza, suavidade sobre peso,

a luz brinca com a sombra que a chuva trouxe.

É o contraste que ensina: após o aguaceiro,

o mundo respira diferente, mais largo, mais doce.


E nós, que testemunhamos a rápida mudança,

guardamos na memória este encontro de cores:

o mar grave e calmo, o céu tênue e terno,

unidos no crepúsculo, como dois amadores


da beleza passageira, que a chuva provoca

e que a luz do ocaso transforma em poesia.

É um momento só, um suspiro da natureza,

que fica na alma, mesmo quando o dia termina.

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