Maria da Penha

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segunda-feira, 6 de abril de 2026

Trégua Armada

 Não é pela data, não pelo brilho vazio,

nem pelo símbolo, o engano ou o ritual.

É só por ser o dia em que é feriado,

o único em que cabem todos, afinal.


Reúno a mesa, o vinho, o gesto lento,

a carne assada e o doce já sem cor.

Mas vejo nos olhares o alinhamento

de uma guerra antiga, de uma antiga dor.


Sempre respiga algo. Um riso que se quebra,

uma pergunta acesa, um tom a mais.

A mãe que chora o filho que não volta,

o irmão que bebe o vinho dos sinais.


E o brinde soa oco como um sino

rachado no rigor do tempo morto.

Natal é o ensaio do sepulcro em família,

Páscoa é a traição de um beijo torto.

Ano novo passa a ferro as cicatrizes,

aniversário é a idade do desgosto.


Eu queria apenas juntar mãos e restos,

mas a união já vem com seu escombro.

E o que deveria ser festa é trégua armada,

onde o amor respira o mesmo ar do monstro.


Então celebra o rito, o calendário,

a desculpa maior que o sentimento.

E se outra família diz que é diferente,

mais verdadeira em cada acontecimento,

não mintas: isso é a farsa transparente.

No fundo, toda família é o mesmo vento.

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