Maria da Penha

Maria da Penha

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O mecanismo secreto das palavras

 O mecanismo secreto das palavras


No ateliê escuro do verso,

as ferramentas não descansam.


A Metonímia é a chave de fenda prática,

substitui a engrenagem pela sombra que ela lança:

não diz "o autor", diz a capa gasta do livro;

não diz "o poder", diz o cetro que pesa na mão vazia.

Trocas sutis — o continente pelo sangue,

a causa pelo efeito mudo.

É uma lógica fria que arde.


A Sinestesia é o curto-circuito dos sentidos,

o fio desencapado do cérebro.

Faz o amarelo gritar da flor,

o som áspero ter cheiro de ferrugem molhada,

o silêncio ganhar textura de veludo negro.

É a percepção feita colisão,

o momento em que os sentidos se traem

e confessam que são um só.


A Antítese é o ímã que se repele,

a costura que une opostos pela tensão do fio.

Luz e breu no mesmo olhar,

raiz e asa no mesmo verso.

Não é o equilíbrio, é o fio da navalha,

o instante em que os contrários se reconhecem

como faces da mesma moeda suja.

É a contradição que sustenta o sentido,

como a respiração: um sopro que é sempre

expirar o ar que se inspira.


E o Pleonasmo — ah, o pleonasmo —

não é vício, é a pulsação obsessiva.

É o eco que insiste na caverna,

o ver com os próprios olhos que duvida da retina,

o calor ardente que precisa provar que queima.

É a linguagem que se toca para crer que existe,

a redundância como ato de fé:

repetir para que o real não escape

pelas frestas do dito.


Juntas, são o organismo da linguagem:

a metonímia (a relação), a sinestesia (a fusão),

a antítese (o conflito), o pleonasmo (a insistência).

São as veias do poema,

o mapa secreto de como nomeamos

o mundo que nos escapa —

enquanto tentamos, em vão,

ouvir o som escuro do limite

que nos cerca e define.

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