Maria da Penha

Maria da Penha

domingo, 15 de março de 2026

A FOME QUE NÃO É DE PÃO

 Tem gente que morre de fome

Tendo o pão sobre a mesa.

Tem gente que adoece

Antes de qualquer tristeza.


Tem gente que envelhece

Sem ter vivido a beleza,

E carrega nas costas

O peso da própria leveza.


Tem gente que tem medo de fazer,

De pular, de cair, de tentar,

E passa a vida inteira

Apenas a observar.


Tem gente que vive no lusco-fusco

Em pleno sol de verão,

Com os olhos vendados

E a alma em escuridão.


Tem gente que nunca vê saída,

Nem quando a porta está aberta,

E prefere a cela conhecida

À liberdade incerta.


Tem gente que anda nu

Mesmo vestido de cetim,

Porque a nudez da alma

É a que mais assusta em si.


Tem gente que morre antes de viver,

Respira sem inspirar,

São estátuas de sal que se esqueceram

De como se deve andar.


Tem gente que ouve sem escutar,

Que olha sem enxergar,

Que fala sem dizer nada,

Que abraça sem apertar.


Tem gente que guarda o sorriso

Pra um dia que nunca virá,

E guarda tanto a alegria

Que a alegria definha no ar.


E seguem, cegos e mudos,

Cada um no seu lugar,

Esperando que um dia a vida

Os aprenda a despertar.


Mas o tempo passa em vão

Sobre os ombros de quem parou,

E a morte, paciente, espera

Por quem nunca começou.

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