Meu Metro Quadrado
Meu corpo encolhe onde tem muita alma.
Meu ouvido sangra onde tem muita voz.
Deixa-me no meu canto, na minha calma.
Meu mundo cabe aqui. E aqui sou nós.
Um mestre instila informações nos seus discípulos, os bons discípulos serão aqueles capazes de contextualizar tais informações numa estrutura não elementar e, através de suas ações passarão a ter conhecimento, mas, para se tornarem mestres, terão de discernir o axiomático, transcendendo a sua máxima, e assim alçarem sabedoria.
Não é pela data, não pelo brilho vazio,
nem pelo símbolo, o engano ou o ritual.
É só por ser o dia em que é feriado,
o único em que cabem todos, afinal.
Reúno a mesa, o vinho, o gesto lento,
a carne assada e o doce já sem cor.
Mas vejo nos olhares o alinhamento
de uma guerra antiga, de uma antiga dor.
Sempre respiga algo. Um riso que se quebra,
uma pergunta acesa, um tom a mais.
A mãe que chora o filho que não volta,
o irmão que bebe o vinho dos sinais.
E o brinde soa oco como um sino
rachado no rigor do tempo morto.
Natal é o ensaio do sepulcro em família,
Páscoa é a traição de um beijo torto.
Ano novo passa a ferro as cicatrizes,
aniversário é a idade do desgosto.
Eu queria apenas juntar mãos e restos,
mas a união já vem com seu escombro.
E o que deveria ser festa é trégua armada,
onde o amor respira o mesmo ar do monstro.
Então celebra o rito, o calendário,
a desculpa maior que o sentimento.
E se outra família diz que é diferente,
mais verdadeira em cada acontecimento,
não mintas: isso é a farsa transparente.
No fundo, toda família é o mesmo vento.