Maria da Penha

Maria da Penha

sábado, 7 de junho de 2025

A Perversidade da Mentalidade Colonial e a Ilusão do Luxo em Meio à Miséria

A persistência de uma mentalidade colonialista no Brasil revela-se na forma como certos setores da elite ainda enxergam a desigualdade não como um problema a ser superado, mas como uma ordem natural a ser mantida. Essa visão arcaica sustenta que a grandeza de uns depende da submissão de outros, como se o luxo de poucos, cercado pela fome de muitos, fosse um símbolo de glória e não a mais evidente demonstração de degradação moral. Essa dinâmica perversa perpetua a ideia de que o "bom escravo" é aquele que não questiona, que aceita passivamente sua condição, enquanto os que oprimem se deleitam em seu isolamento privilegiado, alheios ao caos social que alimentam.  

O paradoxo é evidente, prega-se inovação e educação, mas despreza-se aqueles que são os pilares desse progresso. Professores, tratados com desdém e visto como impostores quando reivindicam dignidade, são exemplos claros dessa contradição. Da mesma forma, nas organizações, os talentos que verdadeiramente fazem a diferença são frequentemente marginalizados, pois sua capacidade de pensar criticamente e desafiar o status quo representa uma ameaça à estrutura de poder vigente. A elite atrasada, em sua miopia, não compreende que a exclusão e a opressão não garantem segurança ou prosperidade duradoura, apenas aprofundam o abismo que um dia poderá engoli-la.  

O que essa elite não enxerga, por estar cega por seu próprio privilégio, é que uma sociedade justa beneficia a todos. Se houvesse um mínimo de equidade, se todos tivessem acesso a condições dignas de vida, o ambiente social seria menos hostil, mais harmonioso e, sobretudo, mais produtivo. A violência, fruto direto da desigualdade, não respeita muros altos ou grades elétricas. A verdadeira grandeza não reside na capacidade de oprimir, mas em construir um sistema em que o progresso de uns não dependa da exploração de outros.  

Enquanto perdurar essa mentalidade colonial, que vê na humilhação alheia um motivo de orgulho, o Brasil continuará preso em um ciclo de atraso e violência. A mudança só virá quando aqueles que detêm poder entenderem que sua riqueza não é medida pela pobreza ao seu redor, mas pela capacidade de compartilhar oportunidades e construir um futuro em que a dignidade humana não seja um privilégio, mas um direito universal. Até lá, seguirão enjaulados em sua falsa grandeza, incapazes de perceber que a verdadeira miséria não está do lado de fora, mas dentro de suas próprias consciências.

 Sobre a fugacidade e os labirintos da condição humana

A existência humana é um sopro diante do abismo do tempo, particularmente para aqueles que ainda detêm o privilégio ambíguo de percorrer décadas sem serem interrompidos pela violência do acaso. A infância, esse longo rito de iniciação à fragilidade, estende-se pela necessidade biológica de sermos criaturas incompletas, incapazes de subsistir sem a mão alheia. A adolescência, por sua vez, é o despertar para a ilusão rompida, o primeiro vislumbre do vazio que cerca todas as certezas, um turbilhão onde identidades se esfacelam e se reconstroem em frágeis pactos com o mundo.  

O saber não nos é dado, não vem inscrito no DNA, somos condenados a recolher migalhas do banquete alheio, geração após geração, até que a mente, lenta e penosamente, assimile o que outros já dominavam antes mesmo de nossa concepção. Quando enfim alcançamos a maturidade teórica para criar, descobrimos que a vida se reduz a uma engrenagem, trabalhar para subsistir, estudar para não perecer na obscuridade, repetir gestos vazios até que o corpo comece a trair seus próprios movimentos.  

O lazer torna-se um intervalo culpado entre obrigações, a reflexão, um luxo para os insones, a felicidade, uma miragem que se dissipa quando tentamos nomeá-la. E então, quando o peso dos anos começa a dobrar nossa espinha, compreendemos que a juventude foi apenas um breve instante de ignorância feliz, antes que a consciência da finitude consumisse nossos dias por dentro.  

Resta a pergunta primordial que ecoa desde os primeiros mitos, vale a pena esse fardo. Talvez a resposta não esteja na lógica, mas no reconhecimento da nossa dupla natureza, somos poeira cósmica que pensa, insignificância que se rebela contra seu próprio desaparecimento, criaturas finitas capazes de infinitas interrogações. Nossa grandeza reside precisamente nessa contradição fundamental: persistimos em buscar significado sabendo que o universo permanecerá mudo, criamos beleza conscientes de que ela será engolida pelo tempo. É nesse abismo entre nossa pequenez e nossa audácia que se esconde, talvez, a mais pura expressão do humano. Mas, será que vale a pena?

Tinta sangrenta

 Quisera eu, tal qual os mestres antigos,  

Com voz suave e pluma delicada,  

Cantar o amor em versos tão prolixos,  

Num doce afã de estrofe bem lavrada.  


Mas quando a pena toca o pergaminho,  

Escorre o tinto em manchas de desgosto;  

O verso puro vira meu caminho,  

E o que era flor transforma-se em despojo.  


Não falo em rosas, nem em céu bordado,  

Nem no suspiro que o amor conduz  

Só sei do amor que vem ensanguentado,  

Do fogo ardente que não tem luz.  


Oh, maldita mão que não refreia  

A dor que insiste em brotar no papel!  

Em vez de canto, só resta a queixa,  

E o meu amor neutro, obscuro, cruel.  


Mas talvez seja esta a sina dura  

Do coração que em sombras se debate:  

Cantar o amor na própria amargura,  

E em vez de flor, escrever arte.

A arte do invisível

Nasci com o dom de desvendar segredos,  

De transformar em luz os densos medos.  

Não ensino com palavras de tratado,  

Mas no silêncio que fala ao teu lado.  


Lá onde os sábios ergueram memoriais,  

Minha voz ecoou em tons triunfais.  

Aqui, onde esperava só verdade,  

Colhi o fruto amargo da falsidade.  


Venderam por prata o que era ouro puro,  

Trocaram por sombra meu claro futuro.  

Mas a essência que em meu peito habita  

Não se rende, não se apaga, não se mitiga.  


Sou como o vento que não pode prender-se,  

Como o rio que não deixa extinguir-se.  

Minha lição é eterna e não se cala,  

Pois nasce da luz que em tudo se exhala.  


Quando quiserem apagar meu nome,  

Saberão que ensino além da morte.  

Como a água que a pedra talha e doma,  

Minha voz permanece, minha alma assoma.

quinta-feira, 17 de abril de 2025

O eclipse da razão quando as sombras engolem o pensamento

A vulnerabilidade cognitiva decorrente da ausência de pensamento crítico configura um fenômeno complexo no qual o indivíduo, desprovido de ferramentas epistemológicas robustas, torna-se suscetível à manipulação ideológica e discursiva. Essa condição não se restringe à mera carência de conhecimento formal, mas reflete uma insuficiência hermenêutica para discernir entre argumentos válidos e falaciosos, entre informação e persuasão oculta. Quando o sujeito não desenvolve capacidade analítica para questionar pressupostos ou identificar vieses, sua cognição passa a operar como território colonizável por narrativas hegemônicas, transformando-o em agente passivo de agendas alheias. A ignorância sapiencial, distinta da ignorância epistêmica, manifesta-se justamente nessa incapacidade de desnaturalizar discursos, levando à internalização acrítica de constructos sociais e políticos. Nesse estado, o indivíduo não apenas reproduz ideias não examinadas, mas torna-se instrumentalizado como massa de manobra, perpetuando estruturas de dominação simbólica que se alimentam precisamente da não problematização do status quo. A trágica consequência é a alienação do próprio processo de pensamento, onde a autonomia intelectual é suplantada por uma pseudo-consciência fabricada.

O espelho da alma

 Se duvidas da honra alheia,  

e na mentira sempre creia,  

se julgar é teu prazer,  

sem ao menos conhecer...  


Se a beleza não toleras,  

e a sabedoria ignoras,  

se o que é bom te faz desconfiar,  

e só enxergas o que é falhar...  


Se te falta humildade,  

e sobra vaidade,  

se o mundo parece vil,  

mas em ti não vês o mesmo tom hostil...  


Ah, amigo, reflita bem,  

pois o mal que vês em alguém  

— se em tudo enxergas defeito —  

pode ser teu próprio peito.  


O problema não são os outros, não,  

és tu, no espelho da ilusão,  

que carrega em teu ser  

o que insistes em não querer ver.

terça-feira, 15 de abril de 2025

A loucura que me habita

 Desde menina me chamaram "doidinha",

como se riscar o céu com giz colorido  

fosse sintoma, não poesia.  


Cresci, e o apelido envelheceu comigo,

"louquinha" agora, com um sorriso condescendente,  

como se toda verdade dita fosse acidente,  

toda paixão exagerada,  

toda entrega... ingenuidade.  


Que maldição é essa que carrego?  

Ser transparente em um mundo de vidros fumê,  

ofertar abraços em tempos de selfies,  

falar em versos quando todos negociam  

em prosa vazia.  


As amizades murcham,

minhas raízes são fundas demais  

para vasos de plástico.  

Sou terra úmida em deserto de aparências,  

água corrente que assusta quem só bebe  

em copos descartáveis.  


Não, não sou louca.  

Sou um ciclone de autenticidade  

em tempos de brisas controladas.  

Meu crime? Amar sem manual,  

confiar sem seguro,  

existir sem disfarces.  


O inferno não é ser como sou

é viver entre fantasmas  

que se dizem pessoas.