Maria da Penha

Maria da Penha

terça-feira, 15 de abril de 2025

A loucura que me habita

 Desde menina me chamaram "doidinha",

como se riscar o céu com giz colorido  

fosse sintoma, não poesia.  


Cresci, e o apelido envelheceu comigo,

"louquinha" agora, com um sorriso condescendente,  

como se toda verdade dita fosse acidente,  

toda paixão exagerada,  

toda entrega... ingenuidade.  


Que maldição é essa que carrego?  

Ser transparente em um mundo de vidros fumê,  

ofertar abraços em tempos de selfies,  

falar em versos quando todos negociam  

em prosa vazia.  


As amizades murcham,

minhas raízes são fundas demais  

para vasos de plástico.  

Sou terra úmida em deserto de aparências,  

água corrente que assusta quem só bebe  

em copos descartáveis.  


Não, não sou louca.  

Sou um ciclone de autenticidade  

em tempos de brisas controladas.  

Meu crime? Amar sem manual,  

confiar sem seguro,  

existir sem disfarces.  


O inferno não é ser como sou

é viver entre fantasmas  

que se dizem pessoas.

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