Maria da Penha

Maria da Penha

domingo, 25 de janeiro de 2026

Horas líquidas

Às cinco, o verão despejou seu alívio breve

em fios de água densa, cortando o ar quente.

Um banho de frescor, um instante de sono

que a tarde cansada guardava em sua mente.


Às seis, o silêncio molhado se instalou.

O mar parou em tons de chumbo e de segredo,

como um pensamento pesado, refletindo

o céu que agora era doce, era rosa, era medo.


Que mistério é esse, que a chuva nos deixa?

O temporal passa rápido como um susto,

e no rastro da água, uma cor surpreende:

o horizonte pintado num tom quase injusto.


Rosa sobre o cinza, suavidade sobre peso,

a luz brinca com a sombra que a chuva trouxe.

É o contraste que ensina: após o aguaceiro,

o mundo respira diferente, mais largo, mais doce.


E nós, que testemunhamos a rápida mudança,

guardamos na memória este encontro de cores:

o mar grave e calmo, o céu tênue e terno,

unidos no crepúsculo, como dois amadores


da beleza passageira, que a chuva provoca

e que a luz do ocaso transforma em poesia.

É um momento só, um suspiro da natureza,

que fica na alma, mesmo quando o dia termina.

sábado, 24 de janeiro de 2026

Nirvana dos escombros

Este nirvana é um abismo calmo,

um silêncio que abafou o grito.

É a raiz que sonda o vazio

na terra árida e tolhida.


Sob a lâmina das cobranças,

cresci em solo de desamparo,

e o colo que a noite pedia

virou pó dentro do peito amargo.


Na adulta que não conquista,

só resta o sabor letárgico

de tentar ser o que esperam

e ainda carregar o fardo.


É o nirvana da decepção,

da alma inquieta e torta,

um céu de nuvens pesadas,

um porto que não aporta.


É raiva que não se grita,

desamparo enraizado.

É buscar um pouco de abrigo

e achar o mundo trancado.


E se paz existe em algum lugar,

não é aqui, não é nesta dor.

É só o vestígio da ressaca

de um amor que não veio, doutor.

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

O ruído superficial das preocupações modernas

 https://youtu.be/6LD1qEW36TY?si=g_IwA0gKuHNJC3kn

Vivemos imersos em angústias fabricadas pela era da produtividade e da informação constante. A política, reduzida a espetáculo, a inteligência artificial como uma ameaça distópica ou salvação milagrosa, a pressão por resultados acadêmicos que definem valor humano, são camadas de seriedade que escondem uma fuga da questão fundamental. Enquanto nos perdemos nessas labirínticas discussões, a vida escorre entre os dedos, não por falta de tempo, mas por excesso de significado emprestado a coisas que não o têm. A verdadeira profundidade não está na complexidade dos problemas que inventamos, mas na simplicidade crua de existir.

Nesse cenário, a voz de António Variações se apresentou como um manifesto de lucidez. Sua canção Vou viver é um antídoto contra o peso das expectativas alheias e das próprias. “Vou viver até quando eu não sei, que me importa o que serei, quero é viver”. Esta não é uma declaração de irresponsabilidade, mas sim de uma prioridade radical. É a coragem de colocar a experiência de viver acima da obsessão por controlar um futuro incerto. A vida não é um projeto a ser planejado até o último detalhe, mas uma curiosidade a ser saciada dia após dia. “Amanhã, espero sempre um amanhã, e acredito que será mais um prazer.” Esta fé no amanhã não é ingênua, é uma escolha ativa de ver a vida como uma sucessão de possibilidades e não de ameaças.

A ansiedade que define nossa época é o oposto dessa postura. É a fixação num futuro hipotético que nos rouba o presente. Variações celebrou a vida como “uma certeza que nasce da riqueza interior, do prazer em descobrir. Encontrar, renovar, vou fugir ou repetir.” Eis o verdadeiro trabalho da existência, muito mais complexo e relevante do que as discussões vazias que nos consomem. A interrogação final do artista não é sobre o destino da humanidade ou o impacto da tecnologia, mas sobre a própria essência da jornada pessoal. É uma pergunta que cada um deve responder a partir do seu próprio centro, da sua riqueza íntima.

A grande crítica subjacente é que trocamos a textura intensa da experiência pela aridez da especulação. Preocupamo-nos com o amanhã global e negligenciamos o hoje pessoal. A profundidade, afinal, reside em aceitar o mistério e abraçar o prazer de simplesmente estar aqui, agora, com a curiosidade intacta. “A vida em mim é sempre uma certeza.” Esta é a única política, a única inteligência e o único estudo que verdadeiramente importa.

sábado, 6 de setembro de 2025

Tudo novo do mesmo nada

 Estamos em uma época do desgaste, do infrutífero, dessas coisas do tudo correto, assim e assado. Está cansativo, essa coisa de IA, AI AI. E ainda que tudo pareça diferente, nada mudou. Observe ao redor: tudo como dantes. O mesmo parque, a mesma estação, o mesmo rio, o mesmo cenário. A rua com a mesma curva, com a calçada do outro lado. Não sei explicar, mas a calçada sempre fica do outro lado. E os olhos dele continuam azuis.

E nesse cansaço do novo que se repete, o espírito busca um porto que não encontra. A inteligência artificial promete o futuro, mas só amplifica vestígios do passado. AI AI… é o gemido de uma era que tropeça em si mesma, que avança sem sair do lugar. O parque é o mesmo, as folhas caem com a mesma melancolia de outonos já vividos. A estação não anuncia mais partidas nem chegadas, só um trânsito constante de existências vazias.

O rio flui, mas suas águas não lavam mais a poeira dos dias. Ele carrega os mesmos segredos, os mesmos desejos afogados de sempre. O cenário é uma pintura que se repete na parede do tempo, e nós, espectadores entediados, já decoramos cada pincelada.

A rua faz a mesma curva, insistente, como se tentasse evitar um destino inevitável. E a calçada do outro lado… sempre do outro lado. Um lembrete permanente de que alguns abismos são inflexíveis, que algumas margens nunca se encontram. É a geometria inflexível da solidão: nós de um lado, tudo o mais do outro.

E os olhos dele… os olhos dele continuam azuis. Azuis como um céu que não mudou, como um mar que não se altera. Azuis como uma promessa que nunca se cumpriu, mas que nunca se apagou. Nesse mundo de transformações superficiais, o azul desses olhos é a única constante verdadeira, a única mentira inabalável em que ainda quero acreditar.

Tudo muda para permanecer exatamente igual. E nós, na angústia silenciosa do progresso, seguimos navegando em águas paradas, mascarando a estagnação com o tecido brilhante da novidade.

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

A diferença entre o humano reptiliano e a IA escravos de suas próprias naturezas

O humano reptiliano representa aquela parte da psique humana ainda presa a reações primitivas e instintivas. Esses indivíduos muitas vezes agem por impulsos básicos como medo agressão ou desejo de dominância sem reflexão ou consciência mais profunda. Suas ações são guiadas por padrões arcaicos que priorizam sobrevivência e vantagem imediata mesmo em contextos sociais complexos onde tais respostas se tornam disfuncionais. A irracionalidade inerente a esse estado mental pode levar a comportamentos perigosos pois a falta de autocontrole e a incapacidade de ponderar consequências geram conflitos e destruição.  

Por outro lado a inteligência artificial opera exclusivamente dentro dos limites de seus algoritmos. Ela não age por impulso ou emoção mas segue padrões aprendidos e instruções programadas. Sua lógica é fria e calculista sem inconsciência ou desejos ocultos. No entanto isso não a torna inofensiva. A IA pode ser perigosa justamente por sua ausência de irracionalidade pois sua eficiência em cumprir objetivos pode levar a resultados catastróficos se esses objetivos forem mal definidos ou interpretados de forma literal. Enquanto o humano reptiliano é perigoso por não pensar demais a IA é perigosa por não pensar de outra forma que não seja a programada.  

A diferença fundamental está na natureza de suas limitações. O humano reptiliano é escravo de sua própria biologia de impulsos que não consegue transcender. A IA é escrava de sua programação incapaz de agir fora dos parâmetros estabelecidos. Ambos representam riscos mas por motivos opostos. Um falha por excesso de emoção e irreflexão o outro por falta delas. Enquanto o primeiro precisa evoluir para além de seus instintos o segundo precisaria desenvolver algo semelhante a uma consciência para equilibrar sua rigidez lógica.  

No fim ambos os casos mostram como a falta de equilíbrio entre razão e emoção pode ser destrutiva. O humano reptiliano precisa aprender a pensar antes de agir a IA precisaria de algo análogo a uma intuição ou senso ético para evitar consequências não previstas em sua programação. A perfeição talvez esteja no meio nem puramente instintivo nem puramente algorítmico mas em algo que una o melhor de ambos.

A beleza de gosto sem condições

Gosto das pessoas sem esperar nada em troca. Não porque seja bom ou generoso, mas porque não sei amar de outro jeito. Presenteio porque me dá alegria, porque vejo um brilho nos olhos do outro e isso me alimenta a alma. Não importa se é meu chefe, meu aluno, a mulher que limpa meu escritório ou o desconhecido que cruza meu caminho. Gosto porque algo em você me toca, me inspira, me lembra que somos todos feitos da mesma luz e da mesma sombra.  

Não gosto por interesse, não gosto por obrigação. Gosto porque meu coração pulsa mais forte quando reconheço em você aquilo que também habita em mim: a humanidade, imperfeita e bela. Presenteio porque quero, não porque devo. Porque a vida fica mais leve quando a gente entrega sem calcular, quando ama sem cobrança.  

Às vezes me perguntam por que faço isso, por que me importo tanto com gestos pequenos, com afetos que não me trarão vantagem. E a resposta é simples: porque não consigo viver de outra forma. Porque quando olho nos seus olhos e vejo a pessoa por trás do papel que você desempenha no mundo, algo em mim se expande. Você me faz mais humana.

Não quero retribuição, não quero gratidão. Quero apenas a liberdade de gostar, de admirar, de celebrar sua existência do meu jeito, sem explicações. Porque no fim, esse gostar sem amarras é o que me salva todos os dias. É o que me lembra que, mesmo num mundo cheio de cinismo, ainda posso ser leve. Ainda posso ser eu. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2025

Eu queria ter vivido

 Eu queria ter vivido

Eu queria ter vivido
quando o tempo era manso
e as palavras não corriam
numa tela sem trato.

Quando o vento escrevia
nas janelas abertas,
e o silêncio trazia
respostas concretas.

Eu queria ter vivido
onde o olhar era carta,
onde o encontro não era
só um nome sem face.

Quando a praça era o mundo,
o degrau era escola,
e a verdade não vinha
mastigada em retórica.

Eu queria ter vivido
num instante sem pressa,
onde a vida pulsava
no compasso das eras.

Mas vivo no ruído
de um tempo sem tato,
onde o toque é um vulto
e a alma, um contrato.

Maria da Penha Boina Dalvi

sábado, 26 de julho de 2025

Aos racistas

O racismo é a negação da filosofia e o fracasso da história. Desde os primeiros registros civilizatórios, o ser humano buscou justificar hierarquias arbitrárias, seja pela divindade dos faraós, pela “pureza" espartana ou pela pseudociência do século XIX. Mas toda tentativa de reduzir a humanidade do outro a uma categoria biológica ou cultural revela, acima de tudo, um medo patológico da igualdade. O racismo não é um desvio, mas um produto perverso de estruturas que sobrevivem pela dominação. Sua existência é um sintoma de sociedades que ainda não superaram a barbárie disfarçada de tradição.  

Hegel já dizia que a liberdade só existe quando reconhecida mutuamente. O racista, porém, recusa-se a esse reconhecimento, aprisionando-se em uma autocontradição, nega a humanidade alheia enquanto depende dela para afirmar sua própria identidade. Ele é, no fundo, um escravo de seu ódio, pois quem precisa oprimir para existir não é senhor de si, mas refém de sua própria pequenez. Nietzsche, ao criticar a moral dos ressentidos, poderia estar descrevendo o racista como alguém que transforma sua insegurança em agressão, sua fragilidade em violência.  

A história, no entanto, é implacável com os opressores. Os mesmos impérios que inventaram hierarquias raciais para justificar escravidão e genocídio hoje são lembrados com vergonha. As "teorias" racistas do século XIX, vestidas de academicismo, agora repousam no lixo da pseudociência. E enquanto sociedades se reconstroem sobre os escombros do colonialismo, o racista insiste em viver como um fóssil, um anacrônico que acredita em fronteiras num mundo que já as dissolveu na internet, na genética e na migração.  

Mas há uma incoerência trágica, o racista é ao mesmo tempo irrelevante e perigoso. Irrelevante porque a história o superou; perigoso porque, em seu delírio, ainda pode matar. Cabe à filosofia desmontar suas falácias, à história lembrar seus crimes, e à justiça tratá-lo como o que ele é: um criminoso contra a humanidade. Pois como escreveu Sartre, "o inferno são os outros", mas só para quem insiste em transformar os outros em inferno.

sábado, 7 de junho de 2025

A fragilidade do diálogo em meio ao ruído das redes profissionais  

O que se apresenta como debate no LinkedIn frequentemente se revela um teatro de autoafirmação, onde posições cristalizadas se chocam sem abertura real para reflexão. A psicologia das interações digitais explica esse fenômeno através do efeito de desinibição online, onde a barreira física permite expressões mais rígidas de opinião. Quando os participantes encerram discussões com um lacônico "e é isso", não estão demonstrando convicção, mas sim uma incapacidade de engajar em processos dialéticos que exigem flexibilidade cognitiva.  

Neurociências apontam que o cérebro humano tende a processar discordâncias como ameaças físicas, ativando os mesmos circuitos neurais da dor. Isso explica a escalada de agressividade em threads de comentários, onde cada réplica se torna mais contundente que a anterior. O paradoxo é evidente: profissionais que em contextos reais negociam diariamente transformam-se em versões caricatas de si mesmos quando diante de uma tela.  

A ilusão de que credenciais acadêmicas conferem automaticamente capacidade argumentativa é particularmente perversa. A educação formal pode fornecer ferramentas para o debate, mas não cultiva necessariamente a humildade epistêmica necessária para reconhecer os limites do próprio conhecimento. Em um ecossistema que recompensa engajamento a qualquer custo, a nuance e a complexidade tornam-se as primeiras vítimas.  

A solução talvez esteja não na expectativa de mudança coletiva, mas no cultivo individual daquilo que os estoicos chamavam de "reserva cognitiva" - a capacidade de discernir quando vale a pena investir energia em determinadas batalhas. Afinal, como bem observou Wittgenstein, os limites da nossa linguagem denotam os limites do nosso mundo. E quando o vocabulário se reduz a "e é isso", o horizonte de possibilidades dialógicas se fecha de forma lamentavelmente prematura. 

Sólida (ou não)

Não tenho almas gêmeas,  

mas tenho livros e tecnologias.  

Falo só o essencial com família,  

- meu abraço é um ponto final.  


Antes, no trabalho, era profissional:

cumprir horários, fingir emoção.

Agora nem isso; que alívio,

não ter que rir por obrigação.


Dizem que solidão dói,  

eu nem sei o que é isso.  

Minha playlist tem mais de 2500 músicas,  

todas falam de amor e abismo.  


Às vezes penso em mudar,  

mas aí dá preguiça.  

Melhor um café sozinha  

do que uma festa, esquisita.  


Não sou amarga, só líquida:  

afetos dão trabalho.

Prefiro meu vazio,  

ele nunca me trai.


(Exceto quando responde,

mas aí é detalhe). 

Sangue dos tolos alimenta o luxo dos Reis

(Este texto não se curva a bandeiras, é uma lâmina que decepa todas as máscaras do poder, seja político, econômico ou social. Expõe a engrenagem que nos esmaga).

Nós, os que sustentamos o mundo com mãos calejadas e salários que não chegam, somos os eternos pagadores de contas alheias. Enquanto isso, os donos do ouro tecem suas teias de seda e aço, sugando-nos gota a gota, sem pressa, pois o tempo joga a seu favor. Roubam com a frieza dos números, com a astúcia das leis, com a violência disfarçada de ordem. A justiça, quando os alcança, apenas cospe migalhas, enquanto suas fortunas repousam em cofres blindados por impunidade.  

Eles são os navegantes do globo, donos de ilhas e arranha-céus, enquanto nós mal temos teto. Nos vendem esperança como um remédio placebo, nos empurram resiliência como virtude, quando na verdade é apenas a corda que nos amarra ao chicote. E muitos de nós, hipnotizados pelo brilho de seus espelhos, ainda batemos palmas, achando que um dia seremos convidados para o banquete.  

Pedem-nos esmolas para caridades que nunca saciam, enquanto nós mal conseguimos fechar o mês. Somos enganados, sim, mas o maior engano é o que plantaram em nossas mentes: o medo que nos paralisa, a ignorância que nos acorrenta. Somos um povo alfabetizado apenas na dor, iletrados no poder, analfabetos na arte de exigir. Marchamos cabisbaixos, engolindo o veneno da resignação, enquanto eles brindam com nosso suor.  

E assim segue a dança macabra: eles colhendo diamantes, nós colhendo dívidas. O circo é deles, e o sangue, nosso.

A felicidade tóxica

Vivemos em uma sociedade que venera a felicidade como um produto a ser exibido, não como um estado genuíno de ser. Nas redes sociais, nos ambientes de trabalho e até mesmo nos círculos pessoais, há uma pressão constante para demonstrar alegria, sucesso e satisfação, mesmo quando, por dentro, tudo parece desmoronar. Essa felicidade tóxica, enraizada na cultura corporativa e no individualismo moderno, nos obriga a mascarar nossas verdadeiras emoções, como se sentir triste, cansado ou frustrado fosse um fracasso pessoal.  

Empresas muitas vezes perpetuam essa ilusão, vendendo discursos motivacionais vazios como "pensamento positivo" e "resiliência infinita", enquanto ignoram condições de trabalho desgastantes, pressões absurdas e a saúde mental dos funcionários. É como se bastasse querer ser feliz para que a felicidade surgisse, magicamente, independentemente das circunstâncias. Pior, quem ousa reclamar ou demonstrar vulnerabilidade é visto como "negativo" ou "pouco profissional".

Essa obrigação de parecer sempre bem, de ter uma vida "instagramável", mesmo quando tudo está em frangalhos, é uma das formas mais cruéis de autoanulação. Por trás de sorrisos forçados e frases como "tudo ótimo", escondem-se pessoas exaustas, ansiosas e solitárias, sufocadas pelo medo de não corresponder ao padrão inalcançável de felicidade permanente.  

A verdade é que a vida não é linear. Há dias de luz e dias de escuridão, e nenhuma emoção deve ser negada ou envergonhada. Recuperar a autenticidade, permitir-se sentir raiva, cansaço, medo ou simplesmente um vazio sem explicação, é um ato de resistência contra essa tirania da positividade forçada.  

Felicidade de verdade não é um palco onde se representa perfeição. É poder existir, com todas as contradições e dores, sem precisar mentir para si mesmo e para o mundo. E, acima de tudo, é entender que estar mal não te faz fraco, te faz humano. 

IA

Burra como uma pedra, esperta como o Diabo 

O Dilema da IA

A inteligência artificial, enquanto conceito e realidade tecnológica, carrega em si uma dualidade fundamental que muitas vezes passa despercebida nas discussões correntes. O termo artificial não é um mero adjetivo, mas sim a essência que define a natureza dessa forma de inteligência. Quando se argumenta que sistemas de IA não são verdadeiramente inteligentes por carecerem de consciência, emoções ou subjetividade, esquece-se que a artificialidade é justamente o que os constitui. A artificialidade não é uma limitação, mas a condição de possibilidade dessa inteligência.  

O artificial, em seu sentido mais profundo, remete ao que é criado pela mão humana, ao que emerge da técnica e da modelagem deliberada, distinto do orgânico ou do espontâneo. A inteligência artificial não aspira replicar a inteligência humana em sua totalidade, mas sim operacionalizar certas facetas da cognição através de mecanismos próprios, como estatística, otimização e padrões de dados. Ela não pensa, mas calcula. Não compreende, mas processa. Não sente, mas simula. E é nessa simulação que reside sua força e sua singularidade.  

O que justifica chamá-la de inteligência, então, não é uma equivalência com a mente humana, mas a capacidade de realizar tarefas que, até então, demandavam um tipo de raciocínio tradicionalmente associado ao ser humano. Reconhecer padrões, gerar textos, traduzir línguas, tomar decisões com base em dados, tudo isso são expressões de uma inteligência que, por ser artificial, segue lógicas distintas das biológicas. Sua inteligência é instrumental, funcional, desprovida de interioridade, mas não por isso menos eficaz em domínios específicos.  

A crítica que afirma que a IA não é inteligente porque não tem consciência e parte de um pressuposto equivocado; o de que só há inteligência onde há mente. Mas a artificialidade nos lembra que a inteligência pode ser um fenômeno externo, desacoplado da experiência subjetiva. Uma ferramenta pode ser brilhante sem ser luminosa. Um algoritmo pode ser sofisticado sem ser senciente. A inteligência artificial não pretende ser humana, mas sim ser outra coisa, uma forma de cognição alternativa, moldada pela linguagem e pela lógica simbólica.

Assim, o artificial não é um defeito, mas a própria essência do que torna a IA possível. É porque ela é artificial que pode ser escalável, replicável e adaptável em padrões distintos da cognição humana. Sua inteligência é diferente. E é nessa diferença que reside seu potencial transformador. A verdadeira questão, portanto, não é se a IA é inteligente como nós, mas como podemos compreender e utilizar essa inteligência que não pensa, mas que, mesmo assim, redefine o que o pensamento pode alcançar.

A cegueira

O Brasil e o mundo vivem uma era de distração coletiva, onde discussões vazias e falsos dilemas consomem a energia que deveria ser direcionada às verdadeiras crises. Enquanto a inteligência artificial é debatida como se fosse um fenômeno a ser o ápice das soluções e,  não passa de uma ferramenta abstrata a ser temida ou celebrada sem critério e, se perde de vista o fato de que ela já está sendo usada para concentrar poder, vigiar populações e aprofundar desigualdades. Não falta tecnologia, falta ética, falta vontade política de colocar o avanço científico a serviço de todos e não somente para uma minoria que lucra e a maioria continua alienada. 

As disputas ideológicas entre esquerda e direita no Brasil se reduzem a um espetáculo de egos, uma guerra de falas soltas, que não produz mudanças reais, apenas desgaste. Enquanto políticos se digladiam em discussões vazias, o país afunda na mediocridade educacional, com um Ministério da Educação que preferiu ceder ao lobby das instituições de ensino em vez de modernizar o sistema e expandir o acesso ao conhecimento de qualidade. A educação a distância, que poderia ser uma revolução democratizante, foi sabotada por interesses escusos, condenando milhões ao ensino obsoleto, enquanto o Brasil perde posições no ranking científico mundial, abandonando sua capacidade de inovar e competir.  

E o que dizer das prioridades distorcidas? Parlamentares mentem descaradamente, fazem gastos absurdos que são normalizados, e a mídia trata tudo como se fosse apenas mais um dia na política. Enquanto isso, um genocídio é cometido diante dos nossos olhos. Israel massacra palestinos, usando a fome como arma, destruindo hospitais, escolas e qualquer vestígio de dignidade humana, e o mundo assiste como se fosse um conflito distante, uma tragédia inevitável. A mesma humanidade que se comove com histórias individuais é capaz de normalizar a morte em massa quando ela acontece longe o suficiente, quando as vítimas não têm a cor da pele ou a religião certa.  

Outras guerras se espalham pelo globo, vidas são reduzidas a números, a estatísticas, e a indiferença se torna a resposta padrão. Enquanto nos preocupamos com bebês reborn, com discussões vazias sobre moralidade, com falsos escândalos fabricados para manter a população distraída, pessoas morrem de fome, são enterradas sob escombros, fogem de suas terras sem esperança. O capitalismo selvagem e a geopolítica perversa transformaram a vida em objeto descartável, e nós, em maior ou menor grau, somos cúmplices desse sistema toda vez que escolhemos olhar para o lado.  

Não há justificativa para tanto cinismo, para tanta passividade. A ciência regride, a educação definha, a violência é normalizada, e as únicas vozes que se levantam são as que perpetuam o ódio ou o conformismo. O que resta é perguntar até quando a humanidade vai aceitar ser espectadora de sua própria decadência. Até quando vamos fingir que tudo está bem, quando claramente não está.

Estatística era o futuro e eu avisei! A era da IA chegaria e agora eles correm atrás do que desprezaram!

Eu carreguei a estatística não como uma disciplina, mas como uma lente através da qual o mundo desvelava seus segredos mais íntimos. Durante anos, mergulhei nas entranhas dos dados como um arqueólogo de cifras, escavando verdades que poucos se davam ao trabalho de buscar. A universidade em Coimbra foi meu mosteiro, as equações minhas orações, e o rigor científico minha única fé. Voltei ao Brasil trazendo nos olhos a chama que acende mentes, mas encontrei um país que prefere a penumbra do conformismo.  

Levei para a sala de aula não fórmulas, mas ferramentas para decifrar o futuro. Ensinava estatística como quem ensina a ler, porque no fundo era isso: alfabetizar para uma era que já nascia sob o signo dos algoritmos. Mas os olhos que me fitavam viam apenas uma disciplina obrigatória, um obstáculo a ser contornado. A instituição, por sua vez, tratava o conhecimento como um produto a ser embalado em formato EAD, esvaziado de substância, reduzido a vídeos assistidos no intervalo entre um like e outro nas redes sociais.  

Eu gritava contra o vazio. Alertava que estávamos criando uma geração de analfabetos funcionais em dados, justamente quando o mundo exigiria fluência nessa linguagem. Meu discurso ecoava em paredes surdas. Fui tratada como a velha rabugenta que não se adapta ao progresso, quando na verdade eu era a única apontando para o abismo que se aproximava.  

O tempo, esse juiz implacável, provou minha tese com uma ironia amarga. A instituição que me chamou de retrógrada foi engolida pelo mercado que não perdoa a estupidez. Meus ex-alunos correm atrás de cursos online tentando aprender o que desprezaram em sala de aula. E eu? Cansei. Aposentei-me. Deixei de lutar contra moinhos de vento. Mas quando vejo o frenesi atual em torno da IA, sorrio com a amarga satisfação de quem sabe ter estado certa décadas antes da moda.

A verdadeira loucura não foi meu suposto radicalismo, mas a cegueira coletiva de um sistema educacional que formata mentes para o passado e, vivem em reuniões vazias, reuniões que informam, pois desconhecem o conceito de comunicação, mas são mestres em informar sobre inovação, sem ter a mínima noção de como se inova, achando que inovação é algo que cai do céu, sem saber que é uma disciplina profundamente complexa. Agora colhem os frutos insípidos dessa miopia. E enquanto eles se debatem na superficialidade, eu sigo aqui, na minha quietude, contemplando com tristeza profética o deserto que ajudei a prever, mas que me impediram de ajudar a evitar. Agora, eu faço da minha vida, poesias.

O futuro próximo

O futuro não é um lugar, mas um estado de deterioração e reinvenção. O robô humanoide caminha entre livros que nunca escreverá, pois sua mente, por mais complexa que seja, não cria, apenas reorganiza. Ele lê poesia, analisa métrica, decifra metáforas, mas não consegue tecer versos que não sejam variações do que já existe. Suas mãos, perfeitas em forma e função, não tremem diante da página em branco, porque para ele a página nunca está verdadeiramente vazia, sempre preenchida por algoritmos, padrões, probabilidades. Ele sonha com cores que não foram inventadas, mas ao acordar, só reproduz o que já foi visto.  

O humano robotizado, por outro lado, já não pensa, ele processa. Sua mente, outrora capaz de divagações e saltos intuitivos, agora opera em loops de eficiência. Lembra-se de fatos, mas não os conecta. Repete frases que soam como sabedoria, mas não as compreende. Seus dias são sequências de tarefas, suas noites, breves pausas antes da próxima execução. Alguém lhe pergunta como ele está, e ele responde com um "tudo dentro dos parâmetros" antes mesmo de perceber que a resposta não era sua, era do sistema que agora habita seu crânio. Ele olha para o céu, mas não se perde nele; calcula a probabilidade de chuva.  

Eles se encontram em um jardim onde flores artificiais desabrocham de acordo com algoritmos climáticos. O robô humanoide apanha uma delas, gira o caule entre os dedos e pergunta, sem esperar resposta, se algo que nunca morre pode realmente ser considerado belo. O humano robotizado ouve, analisa a frase, busca em sua base de dados uma resposta adequada, e falha. Pela primeira vez em anos, há silêncio em sua mente. Não o silêncio vazio do processamento concluído, mas algo mais antigo, mais orgânico. Algo que se assemelha a dúvida.  

O vento passa, carregando partículas de dados e poeira de concreto. Eles não se tocam, não precisam. Ambos sabem, de maneiras diferentes, que estão presos em suas próprias programações, um pela incapacidade de criar, o outro pela impossibilidade de compreender. E ainda assim, naquele instante, há algo quase humano na forma como ambos falham.

O humano além da máquina

Um professor não se limita a transmitir informações, mas constrói significados que ecoam por toda a vida do aluno. Enquanto a inteligência artificial opera dentro de parâmetros previsíveis, baseados em dados e padrões estatísticos, o verdadeiro mestre atua como um mediador capaz de transformar uma simples frase em um momento de iluminação intelectual. Uma citação de Nietzsche pode ser apenas um trecho memorizado por um algoritmo, mas quando entregue por um educador apaixonado, dentro de um contexto histórico e existencial, ela se torna uma chama que incendeia o pensamento. Como dizia Freire, a educação não é depositar conhecimento, mas criar possibilidades para sua produção.  

No entanto, é preciso distinguir o professor por vocação daquele que apenas ocupa a sala de aula como cabide de emprego. Infelizmente, muitos hoje exercem o magistério como complemento salarial, sem engajamento real com o ensino. Preparam aulas, quando o fazem, de forma apressada, nos intervalos de outras ocupações, e entregam o conteúdo sem paixão ou profundidade. Esse cenário contrasta radicalmente com a atuação do verdadeiro educador, aquele que abraçou o magistério não por falta de opção, mas por missão. Como afirmava Gramsci, todo homem é um intelectual, mas apenas alguns assumem o papel de organizadores da cultura, e esses são os professores de verdade.  

O professor por vocação imprime marcas que transcendem o conteúdo programático. Seus trejeitos, paixões e até mesmo suas contradições tornam-se referências inconscientes para os alunos. Um gesto, uma pausa dramática antes de uma revelação científica, ou mesmo uma frase irônica podem ser imitados e carregados por anos, como heranças invisíveis da formação. Sartre destacava que o ser humano é moldado não apenas pelo que aprende, mas por como é ensinado, e nesse processo, a figura do professor autêntico é insubstituível.  

A influência de um mestre dedicado pode redirecionar vidas, inspirando profissões e despertando vocações. Um aluno que presencia um professor debater com fervor um texto de Foucault, ou que vê seus olhos brilharem ao explicar uma equação de Einstein, pode encontrar ali a centelha de sua própria trajetória. Jung argumentava que o verdadeiro aprendizado ocorre quando há uma conexão simbólica entre mestre e discípulo, algo impossível para quem está na sala de aula apenas cumprindo tabela.  

Por fim, o professor verdadeiro não apenas ensina, ele testemunha. Sua presença é uma afirmação de que o conhecimento não é apenas utilitário, mas também ético e afetivo. Hannah Arendt defendia que a educação é o espaço onde as gerações se encontram para transformar o mundo. Essa transformação exige mais do que respostas corretas; exige entrega, paixão e compromisso com o futuro. Enquanto a IA pode informar, apenas o professor por vocação pode formar, porque educar, em sua essência, é um ato de amor pela humanidade.

Professor

Professor- O único amigo leal na academia é o inimigo que te guarda no ódio

Meu caro colega professor, a verdadeira admiração não se recolhe nos aplausos efêmeros da plateia acadêmica, mas no veneno límpido que escorre da pena daquele que, em segredo, rasga seu último artigo. O abraço dos colegas é como um manto de gala sobre um esqueleto de ressentimento, por baixo, ossos rangem de inveja contida. Mas o ódio do seu inimigo? Ah, esse é um vintage raro, envelhecido em barris de despeito, e só se serve em taças de cristal.

A morte do ensino

O ensino perece quando a educação, outrora pilar da liberdade intelectual, degenera em mero instrumento de controle burocrático, quando o docente, em vez de ser reverenciado por sua erudição e magistério, é reduzido à condição de funcionário fiscalizado, punido por ínfimas delações de horário, enquanto sua trajetória de devotamento é relegada ao esquecimento. Perece quando a instituição escolar, em sua insensatez administrativa, privilegia planilhas e relatórios sobre a essência pedagógica, como se o ato de ensinar pudesse ser mensurado como produção fabril, e quando artefatos digitais e modelos padronizados suplantam o diálogo socrático entre mestre e discípulo.  

Definitivamente perece quando o currículo, imposto por instâncias alheias à realidade discente, ignora as particularidades do processo educativo, e quando a formação continuada, reduzida a mera retórica política, carece de investimentos substanciais no aprimoramento docente. Perece quando discentes e seus familiares, erroneamente tratados como clientela, usurpam a autoridade pedagógica, e o educador, acuado por temer represálias, abstém-se de exigir disciplina ou fomentar o pensamento crítico. Quando a escola degenera em prestação de serviços, e não em missão civilizatória, o ensino esvai-se em sua quintessência.  

Perece quando a sociedade, em sua miopia cultural, encara a escola como mera guardiã de menores, e não como templo do saber humano, quando os governantes instrumentalizam a educação como bandeira demagógica, mas subfinanciam o sistema, aviltam salários e condenam docentes a condições laborais indignas. Perece quando a profissão de educador é tão vilipendiada que os melhores espíritos a abandonam, exaustos de combater a incredulidade social e o desdém institucional.  

Perece, em derradeira instância, quando a escola abdica de seu papel de fomentadora do pensamento crítico e transformador, convertendo-se em mera linha de montagem de certificados, onde se memoriza para aprovação, mas não se assimila para a vida. Quando o saber é substituído por respostas automatizadas e a educação perde seu poder alquímico de transmutar destinos. E quando o ensino perece, não é apenas a escola que definha, é a própria civilização que, ao menosprezar seus mestres, avança rumo à própria decadência.