Maria da Penha

Maria da Penha

sábado, 6 de setembro de 2025

Tudo novo do mesmo nada

 Estamos em uma época do desgaste, do infrutífero, dessas coisas do tudo correto, assim e assado. Está cansativo, essa coisa de IA, AI AI. E ainda que tudo pareça diferente, nada mudou. Observe ao redor: tudo como dantes. O mesmo parque, a mesma estação, o mesmo rio, o mesmo cenário. A rua com a mesma curva, com a calçada do outro lado. Não sei explicar, mas a calçada sempre fica do outro lado. E os olhos dele continuam azuis.

E nesse cansaço do novo que se repete, o espírito busca um porto que não encontra. A inteligência artificial promete o futuro, mas só amplifica vestígios do passado. AI AI… é o gemido de uma era que tropeça em si mesma, que avança sem sair do lugar. O parque é o mesmo, as folhas caem com a mesma melancolia de outonos já vividos. A estação não anuncia mais partidas nem chegadas, só um trânsito constante de existências vazias.

O rio flui, mas suas águas não lavam mais a poeira dos dias. Ele carrega os mesmos segredos, os mesmos desejos afogados de sempre. O cenário é uma pintura que se repete na parede do tempo, e nós, espectadores entediados, já decoramos cada pincelada.

A rua faz a mesma curva, insistente, como se tentasse evitar um destino inevitável. E a calçada do outro lado… sempre do outro lado. Um lembrete permanente de que alguns abismos são inflexíveis, que algumas margens nunca se encontram. É a geometria inflexível da solidão: nós de um lado, tudo o mais do outro.

E os olhos dele… os olhos dele continuam azuis. Azuis como um céu que não mudou, como um mar que não se altera. Azuis como uma promessa que nunca se cumpriu, mas que nunca se apagou. Nesse mundo de transformações superficiais, o azul desses olhos é a única constante verdadeira, a única mentira inabalável em que ainda quero acreditar.

Tudo muda para permanecer exatamente igual. E nós, na angústia silenciosa do progresso, seguimos navegando em águas paradas, mascarando a estagnação com o tecido brilhante da novidade.

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