O mecanismo secreto das palavras
No ateliê escuro do verso,
as ferramentas não descansam.
A Metonímia é a chave de fenda prática,
substitui a engrenagem pela sombra que ela lança:
não diz "o autor", diz a capa gasta do livro;
não diz "o poder", diz o cetro que pesa na mão vazia.
Trocas sutis — o continente pelo sangue,
a causa pelo efeito mudo.
É uma lógica fria que arde.
A Sinestesia é o curto-circuito dos sentidos,
o fio desencapado do cérebro.
Faz o amarelo gritar da flor,
o som áspero ter cheiro de ferrugem molhada,
o silêncio ganhar textura de veludo negro.
É a percepção feita colisão,
o momento em que os sentidos se traem
e confessam que são um só.
A Antítese é o ímã que se repele,
a costura que une opostos pela tensão do fio.
Luz e breu no mesmo olhar,
raiz e asa no mesmo verso.
Não é o equilíbrio, é o fio da navalha,
o instante em que os contrários se reconhecem
como faces da mesma moeda suja.
É a contradição que sustenta o sentido,
como a respiração: um sopro que é sempre
expirar o ar que se inspira.
E o Pleonasmo — ah, o pleonasmo —
não é vício, é a pulsação obsessiva.
É o eco que insiste na caverna,
o ver com os próprios olhos que duvida da retina,
o calor ardente que precisa provar que queima.
É a linguagem que se toca para crer que existe,
a redundância como ato de fé:
repetir para que o real não escape
pelas frestas do dito.
Juntas, são o organismo da linguagem:
a metonímia (a relação), a sinestesia (a fusão),
a antítese (o conflito), o pleonasmo (a insistência).
São as veias do poema,
o mapa secreto de como nomeamos
o mundo que nos escapa —
enquanto tentamos, em vão,
ouvir o som escuro do limite
que nos cerca e define.