Maria da Penha

Maria da Penha

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O céu é a chama

 O céu e a chama


Havia um céu claro, inteiro,

um azul de infância, sem mágoa,

um tempo certo, verdadeiro,

que a chuva vinha quando era água.


Surgiu uma espessa fumaça,

nascida do metal e da pressa,

que tingiu o azul de desgraça,

e a chuva em ácido desce em praga.


Corrói a folha, a colheita,

ferve os rios, apaga o orvalho,

um verão que nunca aceita

o outono, nem seu trabalho.


E quando a última nuvem se esvai,

nem o azul nem a água voltarão...

Esse céu é o pacto que fizemos.

Aquela fumaça, a nossa ambição.

Cântico da Medida

 Cântico da Medida


Sem a matemática, seríamos

ritmo sem pulso, dança sem coreografia,

esporte sem estratégia, música sem harmonia,

expressões vagas e desordenadas,

tentativas cegas de organizar o caos.


A matemática não está apenas nos números,

mas na estrutura invisível

que dá forma ao belo, ao preciso e ao possível.


Sem ela, a vida seria

apenas intuição sem direção,

sentimento sem forma,

movimento sem medida,

um poema sem métrica,

ainda assim poema,

mas incapaz de se fazer

completamente entendido ou sentido.

Nirvana dos escombros

 Nirvana dos escombros


Este nirvana é um abismo calmo,

um silêncio que abafou o grito.

É a raiz que sonda o vazio

na terra árida e tolhida.


Sob a lâmina das cobranças,

cresci em solo de desamparo,

e o colo que a noite pedia

virou pó dentro do peito amargo.


Na adulta que não conquista,

só resta o sabor letárgico

de tentar ser o que esperam

e ainda carregar o fardo.


É o nirvana da decepção,

da alma inquieta e torta,

um céu de nuvens pesadas,

um porto que não aporta.


É raiva que não se grita,

desamparo enraizado.

É buscar um pouco de abrigo

e achar o mundo trancado.


E se paz existe em algum lugar,

não é aqui, não é nesta dor.

É só o vestígio da ressaca

de um amor que não veio, doutor.

O mecanismo secreto das palavras

 O mecanismo secreto das palavras


No ateliê escuro do verso,

as ferramentas não descansam.


A Metonímia é a chave de fenda prática,

substitui a engrenagem pela sombra que ela lança:

não diz "o autor", diz a capa gasta do livro;

não diz "o poder", diz o cetro que pesa na mão vazia.

Trocas sutis — o continente pelo sangue,

a causa pelo efeito mudo.

É uma lógica fria que arde.


A Sinestesia é o curto-circuito dos sentidos,

o fio desencapado do cérebro.

Faz o amarelo gritar da flor,

o som áspero ter cheiro de ferrugem molhada,

o silêncio ganhar textura de veludo negro.

É a percepção feita colisão,

o momento em que os sentidos se traem

e confessam que são um só.


A Antítese é o ímã que se repele,

a costura que une opostos pela tensão do fio.

Luz e breu no mesmo olhar,

raiz e asa no mesmo verso.

Não é o equilíbrio, é o fio da navalha,

o instante em que os contrários se reconhecem

como faces da mesma moeda suja.

É a contradição que sustenta o sentido,

como a respiração: um sopro que é sempre

expirar o ar que se inspira.


E o Pleonasmo — ah, o pleonasmo —

não é vício, é a pulsação obsessiva.

É o eco que insiste na caverna,

o ver com os próprios olhos que duvida da retina,

o calor ardente que precisa provar que queima.

É a linguagem que se toca para crer que existe,

a redundância como ato de fé:

repetir para que o real não escape

pelas frestas do dito.


Juntas, são o organismo da linguagem:

a metonímia (a relação), a sinestesia (a fusão),

a antítese (o conflito), o pleonasmo (a insistência).

São as veias do poema,

o mapa secreto de como nomeamos

o mundo que nos escapa —

enquanto tentamos, em vão,

ouvir o som escuro do limite

que nos cerca e define.