Maria da Penha

Maria da Penha

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

O ruído superficial das preocupações modernas

 https://youtu.be/6LD1qEW36TY?si=g_IwA0gKuHNJC3kn

Vivemos imersos em angústias fabricadas pela era da produtividade e da informação constante. A política, reduzida a espetáculo, a inteligência artificial como uma ameaça distópica ou salvação milagrosa, a pressão por resultados acadêmicos que definem valor humano, são camadas de seriedade que escondem uma fuga da questão fundamental. Enquanto nos perdemos nessas labirínticas discussões, a vida escorre entre os dedos, não por falta de tempo, mas por excesso de significado emprestado a coisas que não o têm. A verdadeira profundidade não está na complexidade dos problemas que inventamos, mas na simplicidade crua de existir.

Nesse cenário, a voz de António Variações se apresentou como um manifesto de lucidez. Sua canção Vou viver é um antídoto contra o peso das expectativas alheias e das próprias. “Vou viver até quando eu não sei, que me importa o que serei, quero é viver”. Esta não é uma declaração de irresponsabilidade, mas sim de uma prioridade radical. É a coragem de colocar a experiência de viver acima da obsessão por controlar um futuro incerto. A vida não é um projeto a ser planejado até o último detalhe, mas uma curiosidade a ser saciada dia após dia. “Amanhã, espero sempre um amanhã, e acredito que será mais um prazer.” Esta fé no amanhã não é ingênua, é uma escolha ativa de ver a vida como uma sucessão de possibilidades e não de ameaças.

A ansiedade que define nossa época é o oposto dessa postura. É a fixação num futuro hipotético que nos rouba o presente. Variações celebrou a vida como “uma certeza que nasce da riqueza interior, do prazer em descobrir. Encontrar, renovar, vou fugir ou repetir.” Eis o verdadeiro trabalho da existência, muito mais complexo e relevante do que as discussões vazias que nos consomem. A interrogação final do artista não é sobre o destino da humanidade ou o impacto da tecnologia, mas sobre a própria essência da jornada pessoal. É uma pergunta que cada um deve responder a partir do seu próprio centro, da sua riqueza íntima.

A grande crítica subjacente é que trocamos a textura intensa da experiência pela aridez da especulação. Preocupamo-nos com o amanhã global e negligenciamos o hoje pessoal. A profundidade, afinal, reside em aceitar o mistério e abraçar o prazer de simplesmente estar aqui, agora, com a curiosidade intacta. “A vida em mim é sempre uma certeza.” Esta é a única política, a única inteligência e o único estudo que verdadeiramente importa.

sábado, 6 de setembro de 2025

Tudo novo do mesmo nada

 Estamos em uma época do desgaste, do infrutífero, dessas coisas do tudo correto, assim e assado. Está cansativo, essa coisa de IA, AI AI. E ainda que tudo pareça diferente, nada mudou. Observe ao redor: tudo como dantes. O mesmo parque, a mesma estação, o mesmo rio, o mesmo cenário. A rua com a mesma curva, com a calçada do outro lado. Não sei explicar, mas a calçada sempre fica do outro lado. E os olhos dele continuam azuis.

E nesse cansaço do novo que se repete, o espírito busca um porto que não encontra. A inteligência artificial promete o futuro, mas só amplifica vestígios do passado. AI AI… é o gemido de uma era que tropeça em si mesma, que avança sem sair do lugar. O parque é o mesmo, as folhas caem com a mesma melancolia de outonos já vividos. A estação não anuncia mais partidas nem chegadas, só um trânsito constante de existências vazias.

O rio flui, mas suas águas não lavam mais a poeira dos dias. Ele carrega os mesmos segredos, os mesmos desejos afogados de sempre. O cenário é uma pintura que se repete na parede do tempo, e nós, espectadores entediados, já decoramos cada pincelada.

A rua faz a mesma curva, insistente, como se tentasse evitar um destino inevitável. E a calçada do outro lado… sempre do outro lado. Um lembrete permanente de que alguns abismos são inflexíveis, que algumas margens nunca se encontram. É a geometria inflexível da solidão: nós de um lado, tudo o mais do outro.

E os olhos dele… os olhos dele continuam azuis. Azuis como um céu que não mudou, como um mar que não se altera. Azuis como uma promessa que nunca se cumpriu, mas que nunca se apagou. Nesse mundo de transformações superficiais, o azul desses olhos é a única constante verdadeira, a única mentira inabalável em que ainda quero acreditar.

Tudo muda para permanecer exatamente igual. E nós, na angústia silenciosa do progresso, seguimos navegando em águas paradas, mascarando a estagnação com o tecido brilhante da novidade.